Dois pesos, uma balança quebrada: o roubo dos aposentados do INSS e a mídia que escolhe o que te indigna
- Cultura FM

- 26 de jun.
- 4 min de leitura
Na Cultura FM a gente não desliga o microfone quando o assunto é duro. E o de hoje é: por que o mesmo Brasil que parou pra ver cheque de R$ 20 mil não para pra ver o rombo de R$ 6,3 bilhões no bolso do aposentado?
Desde 2023, o INSS virou caso de polícia. A PF e o TCU apontam descontos indevidos em folha de aposentados e pensionistas feitos por associações e entidades. Dinheiro que sumiu do contracheque de quem ganha salário mínimo. Gente que contou moeda pra comprar remédio e viu o desconto fantasma comer 30, 40, 100 reais por mês. Multiplica isso por milhões de segurados, por anos. O buraco passa de R$ 6,3 bilhões, segundo relatórios iniciais da CPI.
Aí você me pergunta: cadê o plantão da Globo? Cadê o “ao vivo” de Brasília? Cadê o ministro do STF dando 48h pro governo explicar?
Caso Queiroz vs. Caso INSS: o peso da manchete
Volta pra 2019-2020. O nome era Fabrício Queiroz. A acusação: movimentação atípica, cheques descontados, depósitos na conta da primeira-dama. Valores? O Jornal Nacional, o G1 e toda a imprensa abriram capa por semanas com cheques de R$ 17 mil, R$ 20 mil, R$ 24 mil. Teve helicóptero em cima da casa, busca e apreensão ao vivo, quebra de sigilo, entrevista coletiva. Antes de condenação. Antes de trânsito em julgado. O país decorou o nome “Queiroz”.
Agora corta pra 2023-2026. O nome é Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. O esquema: descontos em massa na folha de quem mais precisa. O valor: bilhões. Quantas capas no JN? Quantos helicópteros? Quantas vezes você ouviu “Careca do INSS” no café da manhã?
A régua não é só diferente. É seletiva.
O depoimento que liga Lulinha ao “Careca do INSS”
Em 04/11, o site Poder360 revelou, e a CPMI do INSS confirmou, um depoimento colhido pela Polícia Federal. A testemunha Edson Claro, ex-funcionário de Antunes, afirmou à PF que o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teria recebido pagamentos regulares do “Careca do INSS”.
Segundo o depoimento que consta nos documentos da CPMI, o pagamento incluía uma “mesada” estimada em R$ 300 mil e um montante único de R$ 25 milhões, sem detalhes sobre a moeda. A testemunha disse ainda que Lulinha teria participado de viagens com Antunes.
Repito: é depoimento de testemunha à PF, apresentado na CPMI. Não é sentença. Não é condenação. É investigação em curso. Exatamente como era o caso Queiroz em 2019 quando virou capa diária.
A pergunta que a Cultura FM faz: por que um vira escândalo nacional e o outro vira nota de rodapé?
O Judiciário de 24 horas… só pra um lado
Entre 2019 e 2022, levantamos: ministros do STF deram prazos de 24h ou 48h para o então presidente Jair Bolsonaro explicar atos do governo em pelo menos 27 ocasiões. Nomeação na PF, vídeo de reunião ministerial, decreto de armas, tuíte. Tudo com caneta rápida e holofote ligado.
De janeiro de 2023 a junho de 2026, com o escândalo do INSS estourando, com bilhões sumindo de aposentado, quantos prazos de 24h o STF deu pro governo atual explicar o rombo? Quantas vezes o presidente foi intimado a se manifestar em 48h sobre as associações que sangraram o INSS?
A resposta está no Diário Oficial: o silêncio.
O mesmo STF que mandou soltar André do Rap em 2020, apontado como chefe do PCC, com decisão monocrática de fim de semana. Ele fugiu e nunca mais foi visto. Já a dona de casa que tirou selfie em Brasília em 08/01 está presa há mais de um ano, com pedido de 14 a 17 anos de cadeia. Batons e fuzis. Dois pesos. Nenhuma medida.
A hipocrisia tem CNPJ e horário nobre

Quando é pra chamar manifestante de “terrorista”, a Globo não espera perícia. O G1 não espera defesa. O termo entra no GC da tela em minutos. Quando os EUA falam em classificar PCC e CV como organização terrorista, o Planalto fala em “soberania” e “não aceita palpite”. O mesmo telejornal repercute com tom de nota diplomática.
Cheque de R$ 20 mil: escândalo. Rombo de R$ 6,3 bilhões no INSS: “caso complexo”. Mesada de R$ 300 mil citada em depoimento na PF: “suposto”. Joia saudita: “urgente”. Bilhões do aposentado: “aguardemos as investigações”.
O aposentado que perdeu R$ 45 no contracheque não aguarda. Ele passa fome hoje.
A Cultura FM não escolhe vítima
O Pastor Marcos Alessandro sempre diz aqui no ar: “Justiça seletiva é injustiça coletiva”. Se é pra investigar, que investigue todo mundo. Se é pra dar 48h, que dê pra todo governo. Se é pra chamar de escândalo, que chame quando o dinheiro sai do prato do velho, não só quando sai do gabinete.
O rádio não morreu porque o povo não é bobo. O ouvinte da Cultura FM sabe fazer conta. Sabe que R$ 6,3 bilhões compram muito mais indignação do que R$ 20 mil. Só que a indignação, no Brasil, parece que também tem partido.
Enquanto o INSS sangra e o microfone da grande mídia escolhe pra quem aponta, a gente segue aqui. Ao vivo. Com você. Sem filtro.
Equipe de Jornalismo Cultura FM – 26 de junho de 2026
Fontes: Poder360, 04/11; Documentos da CPMI do INSS; Relatórios TCU 2023-2025; G1 e Jornal Nacional, arquivos 2019-2020; STF – Decisão HC 191.836 André do Rap, 2020.




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